Homicídios no Estado: Rodney distorce e omite dados para tentar enganar população PDF Imprimir E-mail
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Notícias - Policial
Escrito por José Rabelo   
Ter, 12 de Janeiro de 2010 19:39
Da Redação
Grosseiro. Esse é o adjetivo que melhor traduz o teor do relatório sobre o número de homicídios ocorridos no Estado em 2009. Os dados, devidamente distorcidos e manipulados para esconder a verdade e a frieza dos números, foram divulgados na tarde dessa segunda-feira (11) pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) no site do governo do Estado.

No relatório, o secretário de Segurança, Rodney Miranda, subestima a inteligência da população ao tentar mostrar que houve uma redução de 3,17% no número de homicídios na Grande Vitória em 2009. Em seguida, tentando esconder a sujeira debaixo do tapete dos municípios do interior, ele admitiu que houve, sim, um aumento de 17,6% no número de homicídios fora da Grande Vitória. Na verdade, Rodney queria sublimar o aumento de 3,2% no número total de homicídios no Estado de 2009 (2.021) em relação a 2008 (1.958). É como se ele dissesse nas entrelinhas o seguinte: “Calma, minha gente, aumentou no geral, mas, na Grande Vitória, onde se concentra mais da metade da população (e de eleitores) e quase toda a riqueza do Estado, diminuiu, pouco, mas diminuiu”.

No segundo parágrafo do texto do relatório, a assessoria de Rodney “lembrou” – reforçando a tese levantada acima – “que Vitória registrou queda no número de homicídios. Em 2009 foram 155 mortes, o que equivale a 7,7% a menos que em 2008 (168 mortes)”, ou seja, para aqueles que moram na Capital, onde se concentra a maior renda per capta do Estado e do País, a situação não seria tão ruim.

No fundo, ciente de que a maquiagem é fajuta, Rodney preferiu não arriscar e usou apenas números absolutos no relatório, que, quando não são comparados com o número de homicídios por 100 mil habitantes, por exemplo, não significam praticamente nada. Por exemplo, é mais fácil dizer que Vitória reduziu pelo quarto ano consecutivo o número de homicídios, mencionando que no total foram 155 mortes, do que dizer que o número de homicídios por 100 mil habitantes na Capital beira 50 – exatamente o dobro da média nacional, que é de 25/100 mil. Como foi bem mais cômodo citar os números absolutos de homicídios das outras seis cidades da Grande Vitória e ir minimizando seus impactos ao compará-los com dados de 2008.

Nessa abordagem distorcida, Rodney desviou se de dados espinhosos como os homicídios nos municípios de Serra, Cariacica, Vila Velha e Viana (vide tabela ao lado). O município de Serra, por exemplo, encerrou o ano com a lastimável marca de 97 homicídios por 100 mil habitantes. Isso significa dizer que é mais fácil ser assassinado na Serra do que no Iraque. Com homem-bomba, mísseis rasgando o céu de hora em hora, atentados terroristas da Al-Qaeda e tudo o mais, a média de homicídios no Iraque é de 70/100 mil.

Seria igualmente constrangedor para o secretário ter que admitir que o município de Cariacica também supera o Iraque com larga vantagem: são 93/100 mil; Vila Velha segue em terceiro no ranking das cidades mais violentas do Estado com 77/100 mil. Abaixo de 70 homicídios por 100 mil, mas ostentando números de países em conflito armado, aparecem Viana (66,6); Guarapari (64,4); Vitória (49,3) e Fundão (43,7).

Os sete municípios da Grande Vitória juntos, que agregam uma população de cerca de 1,6 milhão de habitantes (dados estimados do IBGE para 2009), respondem pela taxa média de 77 homicídios por 100 habitantes, marca que supera Iraque, Afeganistão e Colômbia - países que estão em conflitos armados permanentes.

Da mesma maneira, é mais conveniente manipular os dados e apontar que 2009 registrou uma sensível diminuição em relação a 2008. Conclusão: a situação é muito complicada, mas o “esforçado” secretário, com a ajuda sempre solicita do governo Estado, vem conseguindo, aos poucos, reduzir a violência no Espírito Santo.

Rodney, ainda no relatório falacioso, tem a pachorra de afirmar que vai levar o programa de Enfrentamento da Violência para algumas cidades do interior. Fica o recado para o bom entendedor: “Olha, minha gente, esse maravilhoso programa já reduziu os homicídios na Grande Vitória em vultosos 3,17%. Se deu certo aqui, por que não levá-lo para o interior?”. Mais uma ideia brilhante do secretário. Porém, para amenizar as críticas dos interioranos que continuam com a cara amarrada e insistem em questionar o aumento de 17,6% no número de homicídios em municípios onde antes era possível dormir de portas e janelas abertas, Rodney adverte: “70% dos homicídios que acontecem no Espírito Santo e no Brasil estão relacionados ao tráfico de drogas”. Em outras palavras: a culpa é das drogas.

Mais incômodo ainda seria para o secretário tentar explicar - uma vez que, segundo ele, a equação drogas=homicídios se estende a todo o Brasil - porque Pernambuco, que detinha a liderança absoluta no número de homicídios, conseguiu reduzir sua taxa de homicídio para 49/100 mil, a exemplo de São Paulo e Rio de Janeiro. Lembrando que o Espírito Santo fechou o ano com a absurda taxa de 61,4%/100 mil. No Brasil, ficando um ponto atrás do novo líder, que passou a ser o estado de Alagoas (62,6/100 mil), o Espírito Santo reina absoluto no segundo lugar já há alguns anos, e sempre ameaçando assumir a ponta.

Embora o secretário Rodney Miranda evite as taxas de homicídios por 100 mil – contrariando todos os especialistas e estatísticas no Brasil e do mundo -, talvez ele questione que o total de 2.021 homicídios, aceitos por ele, para uma população de cerca de 3,4 milhões de habitantes (estimativa do IBGE para 2009), equivaleria a uma taxa de 59,4/100 mil, e não os “exagerados” 61,4/100 divulgados por Século Diário, exatos dois pontos acima das estatísticas da Sesp.

Para refrescar a memória do secretário e esclarecer à população sobre o engodo dos números apresentados pelo secretário, é preciso lembrar, mais uma vez, que outras 67 pessoas, segundo dados do próprio Ciodes, foram assassinadas no Estado em 2009.

Propositalmente, Rodney Miranda mandou o Ciodes excluir das estatísticas de homicídios de 2009 os latrocínios (roubos seguidos de morte; 23); os confrontos com a polícia (22 mortes) e as lesões corporais seguidas de morte (mais 22). O que resulta num total de mais 67 mortes. Somando-se aos 2.021 homicídios registrados secamente no ano passado, chegamos ao total de 2.088 homicídios no Estado, ou, 61,4/100 mil.

Para quem prefere os números absolutos, foram 130 mortes a mais em 2009 (2.088) em relação a 2008 (1.958). Sendo assim, o aumento anunciado pela Sesp de 63 homicídios a mais ou 3,2% tem de ser corrigido para exatamente o dobro: 6,2%. Na esteira das correções, não precisamos lembrar ao secretário que a propalada redução de 3,17% no número de homicídios na Grande Vitória, a essas alturas, já foi para a cucuia.
Notícia retirada na íntegra do parceiro: seculodiario.com.br
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