Entrevista da Semana – Alexandre Martins de Castro PDF Imprimir E-mail
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Colunistas - Entrevista Especial
Escrito por Élida Oss   
Seg, 22 de Março de 2010 17:42

Élida Oss  

Sete anos após o assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, o professor Alexandre Martins de Castro, pai da vítima, volta a ser procurado pela imprensa.

E o foco dos questionamentos tem origem em uma pergunta que todos esperam pela resposta: Quando os apontados nos autos como mandantes do crime enfrentarão o júri popular?  

O juiz Alexandre Martins de Castro Filho, que tinha 32 anos, foi assassinado com três tiros, na manhã de 24 de março de 2003, quando chegou à academia de ginástica, em Itapoã, Vila Velha. Ele integrava a missão especial federal que, desde julho de 2002, investigava as ações do crime organizado no Espírito Santo. Nas comarcas em que atuou consta a de Linhares, onde participou de diversas reuniões sobre a edificação da atual Sede do Judiciário, no bairro Três Barras. 

Nesta entrevista, Alexandre Martins de Castro deixa claro toda a sua revolta e também conta onde estava na manhã do dia 24 de março de 2003, o que fazia e como reagiu ao saber que o filho único tinha sido assassinado. Confira: 

 

ESNEWS - Dr. Passou mais um ano, e a imprensa volta a falar da morte do seu filho. O que mudou desde que aconteceu o homicídio? 

 

ALEXANDRE MARTINS - De bom para o andamento do processo, praticamente nada mudou. Apenas o recurso do ex juiz Antonio Leopoldo foi encaminhado para o STJ (Superior Tribunal de Justiça), em Brasília. Isso é um absurdo, porque alguns executores e intermediários já estão em regime semi aberto e, portanto, em liberdade. Os dois sargentos foram soltos. Ao mesmo tempo, embora um dos acusados de mando (Coronel Walter Gomes Ferreira) tenha sido condenado em dois processos, somando 28 anos de reclusão, os juízes de ambos processos determinaram que ele aguardasse o resultado dos recursos em liberdade. Isso significa, na prática, dizer que ele vai ficar solto.  

ESNEWS - Alem dos executores, o que a justiça, de fato, apresenta até aqui nos Autos? 

ALEXANDRE MARTINS - Já há condenação dos quatro executores e dos três intermediários. Falta o julgamento e provável condenação dos três mandantes (Antônio Leopoldo, Walter Gomes Ferreira e Cláudio Luiz Andrade Baptista, o Calu). O Leopoldo também tem um processo de corrupção, que está na Vara do Juiz Telêmaco (Telêmaco Antunes de Abreu Filho). Mas também esse processo está “encantado”. Pedi ao ex-presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, Dr. Álvaro Bourguignon, que conversasse com o Dr. Telêmaco para julgar o processo de corrupção, mas nada aconteceu. Aliás, esse Desembargador alardeou que iria fazer uma correição em todos os processos do Coronel Ferreira, mas... Nada aconteceu.Confio muito no atual Presidente do TJ, Desembargador Manoel Rabello e estou esperando que ele se organize na Presidência, para pedir uma audiência a ele.  

ESNEWS - Descreva, com suas palavras, por favor, o que é processo “encantado”.  

ALEXANDRE MARTINS - Esse processo teve, como origem, a denúncia feita pelo Alexandre, de que o ex juiz LEOPOLDO cometia irregularidades e praticava atos desonestos na Vara de Execuções Criminais. Por causa dessa denúncia, o Leopoldo foi aposentado e se iniciou processo de corrupção. O TJ  aceitou, por unanimidade, a denúncia contra o Leopoldo e, quando já estava prestes a ser julgado, o STF mandou que o processo foi para o Dr. Telêmaco, que não julga o processo. 

ESNEWS - O senhor concorda com tudo que a justiça apresentou? 

ALEXANDRE MARTINS - Concordo com tudo o que a Justiça apresentou, só não concordo com a lentidão em Brasília e com a lentidão no processo de corrupção do ex juiz Leopoldo. Também não concordo com o cenário montado para investigar os processos do Coronel Ferreira, sem que nada de prático tenha ocorrido. 

ESNEWS - A que o senhor atribuiu a lentidão mencionada lá em Brasília? 

ALEXANDRE MARTINS - A demora em Brasília é um desses mistérios que nem Agatha Christie poderia imaginar... 

ESNEWS - Em relação a sua insatisfação referente a investigação dos processos do Coronel Ferreira, teria como descrever que cenário é esse?  

ALEXANDRE MARTINS - O cenário que me desagradou é o ex-presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, Dr Álvaro Bourguignon, no auge da crise do TJ, ter apontado, como uma das medidas saneadoras, uma correição para investigar a lentidão dos processos contra o Coronel Ferreira. Em que deu tal investigação? Quais foram os resultados práticos? Quem foi punido? É razoável alguém que está condenado há 28 anos recorrer em liberdade? Claro que isso me aborrece muito. 

ESNEWS - Então, para o senhor, quem mandou tirar a vida do seu filho? 

ALEXANDRE MARTINS - Esse fato já está bem apurado: a Polícia investigou, o Ministério Público denunciou e o Judiciário pronunciou o Ex juiz Leopoldo, o Coronel Ferreira e o ex-policial Calu como sendo os mandantes do assassinato de meu filho. Não tenho porque discordar de todas as autoridades, principalmente porque todos os acusados fogem do julgamento como o diabo foge da cruz. É claro que eles têm conhecimento do que existe no processo contra eles e não querem se submeter a julgamento. 

ESNEWS - O senhor já esteve com algum deles depois da morte do seu filho?  

ALEXANDRE MARTINS - Só os vi por ocasião de julgamentos ou de atos processuais. 

ESNEWS  - Conhecia algum deles?  

ALEXANDRE MARTINS - Só conhecia o Leopoldo, porque ele foi meu aluno de pós-graduação. 

ESNEWS - O Alexandre Martins de Castro Filho trabalhava no Espírito Santo e morava no Rio de Janeiro. E o senhor também trabalha em solo capixaba e em solo carioca. Vocês moravam nas mesmas casas aqui e lá? 

ALEXANDRE MARTINS - Não. Desde que o Alexandre Filho se formou e passou a advogar e a lecionar, ele passou a morar sozinho no Rio, em um imóvel que cedi a ele, para que tivéssemos nossa privacidade. Quando ele ingressou na Magistratura no Espírito Santo, ele adquiriu o imóvel dele, no Espírito Santo e eu adquiri o meu. Estávamos sempre juntos, um visitava o outro, mas morávamos separadamente, tanto no Rio como no Espírito Santo, porque entendíamos que era melhor que cada um pudesse ter sua vida privada e receber os visitantes que quisesse. 

ESNEWS - Como era a rotina de Alexandre filho com Alexandre pai?  

ALEXANDRE MARTINS - Nós estávamos muito juntos, porque dávamos aulas no nosso curso e muito raramente um deixava de telefonar para o outro. Isso ocorria todos os dias. Além disso, tínhamos a mesma paixão pelo Flamengo e, quando podíamos, víamos o jogo pela TV. Era comum que trocássemos idéias sobre aulas, artigos, mudança na lei, ou conversássemos sobre amenidades. Na verdade, nosso relacionamento, mais que de pai e filho, era de dois excelentes amigos. 

ESNEWS - Roupas, objetos pessoais, o senhor mantém algo guardado?  

ALEXANDRE MARTINS - Quase tudo que pertencia ao Alexandre eu guardei. Só dei parte da roupa dele e, recentemente, doei todos os livros dele para a biblioteca da FDV (Faculdade de Direito de Vitória), que era a Faculdade onde ele trabalhava e admirava. Atualmente, também leciono lá e achei que a FDV era e é merecedora de receber esse acervo de livros que pertencia a meu filho. 

ESNEWS - Quantos livros o Alexandre possuía e que foram doados à FDV? 

ALEXANDRE MARTINS - Cerca de 500 livros. 

ESNEWS - Qual é a lembrança mais forte que acontece quando alguém da imprensa procura o senhor para falar sobre a morte dele? 

ALEXANDRE MARTINS - Acho essa pergunta excelente. Não há lembrança mais forte e nenhuma pergunta me faz lembrar dele, porque eu fico permanentemente pensando nele e no absurdo que foi o assassinato dele. Fico pensando na perda que o Estado teve, com a morte prematura de um Juiz honesto, sério trabalhador e muito brilhante. Por isso é que nunca me furtei a qualquer entrevista, porque, longe de ficar triste, eu tenho muito orgulho de falar dele, como tinha e tenho muito orgulho em ser o pai dele. Acho também que devo preservar a memória dele para que, por muitos anos, todos possam saber que ocorreu esse crime hediondo, fruto do crime organizado e da corrupção e insensatez. 

ESNEWS - Foi criada uma comunidade no Orkut com o nome do Alexandre Filho, e o senhor é um dos membros. Clique aqui e participe. O ESNEWS acompanha as postagens, e observamos que vez por outra o senhor tenta manter o objetivo da página, apagando certas postagens. Recebe críticas por adotar tal procedimento?  

ALEXANDRE MARTINS - É verdade... A comunidade com o nome dele foi criada com o objetivo de registrar aspectos ligados ao crime de que ele foi vítima e de mostrar aspectos ligados à pessoa dele. Hoje já fazem parte da comunidade Alexandre Martins de Castro Filho 845 membros e espero que logo ultrapasse o número de 1000 integrantes. Muitas pessoas, também vítimas de outros crimes, fazem postagens relativas a esses outros crimes. Isso me obriga, como moderador, a não permitir que haja desvio do foco da comunidade, o que nem sempre é muito simpático, mas necessário. É que o assassinato de meu filho foi um crime muito emblemático e, às vezes, as pessoas até querendo ajudar, trazem questionamentos que fogem aos objetivos da comunidade.  Todos os que têm página no Orkut podem fazer parte da comunidade, o que é até mesmo uma forma de homenageá-lo, mas eu tenho o dever de só permitir que se postem mensagens relativas ao objetivo da comunidade. 

ESNEWS - Seria muito dolorido se pedíssemos para descrever a cena da ultima vez em que esteve com seu filho em vida? 

ALEXANDRE MARTINS - A última vez que estive com ele foi na quinta-feira, 20/03/2003, quatro dias antes dele ser assassinado. Estivemos junto à noite, porque ele, a meu convite, proferiu a aula inaugural do Curso de Direito de que eu era Coordenador. Ele foi brilhante como sempre e, no final, conversamos um pouco e fui com ele até o carro dele. No domingo à noite, 10 horas antes dele ser assassinado, conversamos uns 10 minutos pelo telefone. Nunca mais o vi nem falei com ele, mas é como se ele estivesse presente, como se ele estivesse fazendo uma viagem de férias... 

ESNEWS – O que o senhor estava fazendo quando recebeu a noticia da morte do seu filho? 

ALEXANDRE MARTINS - Eu estava aplicando prova numa turma de direito, no Rio de Janeiro, e a secretária foi à sala e me disse que havia um telefonema urgente que eu precisava atender. Na hora, pelas feições e pela voz da secretária, pressenti a desgraça e avisei à turma que a prova estava suspensa. Por telefone, apenas me disseram para ir imediatamente para Vitória, pois já havia uma passagem em meu nome. No caminho para o aeroporto, quando o motorista do táxi soube que eu ia para Vitória, ele comentou que um juiz tinha sido assassinado e que o nome dele era Alexandre. Eu me recusava a acreditar, mas quando desci do avião, um policial federal que eu não conhecia, deu-me um abraço e sussurrou "meus pêsamens, doutor. Seu filho era um grande Juiz". Nunca vou esquecer esse abraço e essas palavras.  

Comentarios (9)add comment
...
escrito por Isla Maria Celeste da Silva Sabino , maio 29, 2010

Dr. Alexandre
Mesmo distante tenho acompanhado sua luta por justiça.
Não desista nunca, Deus sempre renovará suas forças e lhe mostrará a direção.
Isla Sabino
Assistente Social
maio, 2010

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escrito por Marcelo Alves Stefenoni , maio 22, 2010

Ele teria sido meu professor no 5º período da Faculdade, sendo que uma semana antes do seu assassinato, tivemos uma palestra proferida em conjunto com o Dr. Carlos Eduardo, aliás, também foi meu professor na Escola da Magistratura.
Gente como Alexandre e Carlos Eduardo é que nos fazem levantar a cabeça e seguir acreditando na vida e no sistema.
Quanto aos outros - todos sabem os nomes... - independente de terem sido condenados ou não dentro das leis penais, inspiram asco por onde passam e o que mais os incomoda é saber que deles não temos medo.
Bandidos é que sentem e devem sentir medo, sempre.
Um entrou para a História com herói.
Seus algozes vivem nas sombras como vilões que são e baixam as cabeças até para os ratos, quais como eles, vivem nos esgotos e à margem da Sociedade.

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escrito por marcelo galera , março 25, 2010

Lendo essa entrevista fiquei muito triste, por saber que um homem honesto corre risco de vida hoje em dia. eo mesmo tempo compadecido da dor do Pai. mas quero que o senhor saiba que os bandidos vao pagar por esse crime, esteja certo disso. a justiça na terra e falha e pode dar um jeitinho. mas a justiça Divina não!, nesse momento de dor e tristeza, apegue-se a Palvra de Deus e medite em Mateus cap 5, conhecido como o sermão da montanha. Porque bem aventurados os que tem sede de Justiça! conte comigo e com minhas oraçoes. Marcelo galera(cordenador do grupo intercessão no japan)
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escrito por Ana , março 25, 2010

Eu chorei quando li sobre a noticia da morte e a confirmação do taxista.
Que Deus lhe abençoe nesta luta, Alexandre Martins de Castro.
vamos esperar para ver os culpados atras das grades.
Espero que isso aconteça o mais rápido possível.

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escrito por ARLETE AZEREDO , março 25, 2010

Que abisurdo!!! os crimes nao tem fim!!!Li esta noticia da qui da Italia , e pensei... A mafia esta ate no Espirito Santo !!! A MAFIA ESTA EM TODOS OS PAIZES ... EU PENSEI QUE FOSSEM MAFIOSOS SO OS ITALIANOS ?COITADO DESTE PAI !!!ALEM DE PERDER UM FILHO, PERDEU UM GRANDE JUIZ !!!eu vou dizer com toda certeza se isto acontecesse aqui na Italia estes criminosos ja estariam pagando pelos seus crimes . Porque aqui tem mafia mas tem tbem as leis que funciona muito bem!!!um saluto da Italia para o pai o s.hor Alexandre. pede justiça mesmo e seja forte viu ?abraços.
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escrito por James Gama , março 25, 2010

É uma vergonha a lentidão e a inoperância da Justiça e de alguns órgãos do nosso Estado e do nosso país.

Que a justiça seja feita!! E rápido!

Parabéns pela entrevista.

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escrito por Luan M. O. , março 25, 2010

É um absurdo essa morosidade da justiça! Até me comovi ao ler como o pai recebeu a noticia da morte do filho, assassinado por combater essa corrupção maldita. Fica aqui o meu protesto e que a justiça dos homens que podem fazer justiça pare de ser comprada para que se possa ver os envolvidos julgados e, espero, condenados!
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escrito por Paulo Henrique Ventura , março 25, 2010

A entrevista está ótimia. Nela a gente pode ver como um pai continua sofrendo por ver a justiça falhar tao feio como está falhando. Que esses seres apontados como culpados enfrentem logo um Juri!
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escrito por José M. , março 25, 2010

Li a entrevista e fiquei emocionado. Como esse pai deve ter sofrido e ainda sofre vendo essa lentidão da justiça.
Cadê as nossas autoridades?

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